O Pecado da Daniela Cicarelli
Por Nospheratt • Sep 27th, 2006 • Seção: Cultura e Entretenimento
O vídeo da Daniela Cicarelli continua dando o que falar. Estou aderindo à campanha do Síndrome de Estocolmo, não exatamente para apoiar “la Cicarelli” como pessoa, mas para apoiá-la como símbolo. O apedrejamento público e coletivo que ela está sofrendo é um mega-reflexo do pensamento machista, patriarcal e arcaico da sociedade, o qual pretende - e muitas vezes consegue - controlar e rebaixar as mulheres, através da reprovação e o desprezo. Eu abomino isso.
Quem condena a Daniela Cicarelli somente por causa do vídeo, é um hipócrita, quando não um estúpido. O problema dessas pessoas é que ela quebrou as regras, usou de sua liberdade, deixou à mostra (embora não de forma explícita) sua sexualidade. Eu não sou partidária de demonstrações de carinho tão exuberantes em público, mas não acho que o que se vê no vídeo seja o fim do mundo. Ali não há nada que não se haja visto na televisão, no cinema, na novela das oito. No entanto, os puritanos e os machistas bradam aos quatro ventos: Ela é uma vagabunda, vamos linchá-la em praça pública!
Esse tipo de postura demonstra falta de inteligência, de tolerância, de discernimento, de ter o que fazer. Para exemplo, um belo comentário que me foi deixado, sobre meu post anterior. De forma anônima, claro; o cidadão assina “ddkks”, sem link, sem email, escondido atrás de sua covardia. É engraçado como quem critica e ofende outras pessoas, dificilmente dá a cara. Isso pra mim só prova que seus argumentos não se sustentam, e que essas pessoas não tem coragem de dizer o que pensam - a menos que estejam comodamente protegidas no anonimato.
Vejamos as pérolas de sabedoria que nos oferece o anônimo.
“Sim ela é uma puta mesmo. Fuder não é o problema, e sim a praia. Um local público.”
Pra começar, fOder se escreve com O. Então, foder não é o problema, mas sim fazê-lo em um lugar público. Até aí estamos de acordo. Só que ninguém viu a Daniela foder, só viram ela apertando o namorado, dentro da água. A mera sugestão de um ato sexual é suficiente para rebaixá-la à categoria de puta.
“Não quero passar com a minha mãe e ver uma vadia trepando igual um animal irracional.”
Essa é ótima. Olha qual é a preocupação do rapazinho: que sua mãe não veja uma moça se esfregando no namorado, na praia. Obviamente a mãe dele não deve saber como é dar uns amassos num homem bonito, ou deixar-se levar pelo tesão. Como bom filho, ele quer proteger sua progenitora - que na cabeça dele deve tê-lo gerado através de partenogénese (reprodução assexuada), e deve ser virgem até hoje - de ter seus olhos conspurcados pela visão de alguma safadeza.
Quanto a “trepar igual um animal irracional”, existe outra forma de trepar? Sexo é instinto, é animal, é completamente irracional. Se você, meu caro “ddkks”, trepa como um animal racional, eu tenho pena de você, pois então não sabe o que é uma boa transa. Talvez daí é que venha toda essa virulência, da frustração.
“Segundo: ela fez de caso pensado, tornando-se mais vadia ainda.”
De caso pensado? O que significa isso? Que ela transou porque pretendia transar? Ou você se refere à teoria de que o vídeo não passou de uma estratégia publicitária? Se for a primeira opção, não tenha nada a comentar, pois essa seria uma afirmação demasiado estúpida para merecer resposta. Se for a segunda opção, não existem provas disso. E mesmo que fosse verdade, ela tem o direito de fazê-lo. Um golpe de marketing desse tipo só tem razão de ser, porque a sociedade consume esse tipo de coisa. Então, ninguém tem o direito de crucificar a moça por aproveitar-se disso.
Mais vadia ainda? Como se mede quem é mais ou menos vadia? Há diferença?
O sr. Anônimo deve abominar qualquer tipo de pornografia, não? Digo, para ser coerente.
“Pois o caminho mais fácil para qualquer mulher, é abrindo as pernas, e isso ela faz muito bem.”
Mas que beleza!!! Que perfeito exemplo de afirmação machista e imbecil! Essa frase evidencia o preconceito e o desprezo que muitos homens nutrem em relação às mulheres (principalmente àquelas que não dão pra eles). Acho incrível que ainda exista gente (gente?!) que acredita que “abrir as pernas é o caminho mais fácil para a mulher”. Ainda somos julgadas em função de nossa vida sexual; e nossa sexualidade é reduzida a “abrir as pernas”.
E veja bem, ele diz “para qualquer mulher”. Ou seja, todas as mulheres são vadias em potência ou em exercício - menos a mãe dele, é claro.
O que não sei é como nosso sábio pode afirmar que a Daniela Cicarelli abre as pernas muito bem, pois isso não se vê no vídeo; e CERTAMENTE ela não abriu as pernas para ele. Se bem que, se formos analisar o assunto desde a ótica puritano-machista, ela é uma vadia profissional; e portanto, deve exercer a profissão com maestria. Suponho.
“Não tenho nada a ver com sua vida promíscua, desde que sua vulgaridade não pertube a minha vida.”
Aha! Chegamos a um ponto fundamental!
No Dicionário Aurélio: “Promíscuo”, em Português do Brasil - Diz-se de pessoa que se entrega sexualmente com facilidade. É verdade, a Daniela não deu uma de difícil com o namorado. Ela só deu uma. E também é verdade que ninguém tem nada que ver com isso. Inclusive, talvez também seja verdade que o comportamento dela foi um pouco vulgar.
Agora, porquê isso “perturba sua vida”? Ou a vida de quem quer que seja, “for that matter”? Ninguém, dos que estão comentando, reclamando e criticando, foi testemunha do que aconteceu na praia. Ninguém foi obrigado a assistir ao vídeo. Ninguém foi forçado a ler os blogs que falam do assunto, nem a comentar sobre isso.
A verdade é que o “Caso Daniela Cicarelli” perturbou a vida de muita gente, por ser uma trangressão das regras hipócritas e moralistas que imperam. Gente que não move um dedo para protestar contra a corrupção, a violência, a miséria, o analfabetismo, gastou horas e horas pesquisando sobre o vídeo na Internet, lendo textos sobre o assunto e deixando comentários truculentos sobre as cenas picantes. Não deixa de ser engraçado.
O vídeo em si é um acontecimento intranscendente. O que sim me parece importante, é a reação que causou, e o que ela mostra sobre o pensamento de nossa sociedade. Em outros tempos, a Cicarelli seria queimada em praça pública. Simplesmente por ser mulher. Porque a questão aqui, as críticas, não são sobre a imoralidade de transar em público. São sobre a imoralidade de UMA MULHER transar em público.
Eu não vi um só comentário criticando o cara que estava com a Daniela. É como se ela estivesse sozinha no ato. Ela é a vadia, a puta; o cara não existe. Ninguém critica a participação dele, simplesmente porque ele é homem. A mulher que abre as pernas não presta; o cara que se enfia no meio das pernas dela, é um garanhão, um ganhador. Ele não merece ser apedrejado, mas aplaudido.
Aí está o verdadeiro pecado que a Daniela cometeu: ser mulher.
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Nospheratt é mulher por nascimento e vocação, irônica por diversão e hobby, brasileira inveterada, filósofa nas horas mais impróprias, blogueira de profissão, escritora e poeta pela pura necessidade de expressar seus oceanos interiores.
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“Só que ninguém viu a Daniela foder, só viram ela apertando o namorado, dentro da água. A mera sugestão de um ato sexual é suficiente para rebaixá-la à categoria de puta.”
Ahhhhh… Sabe, eu também já fiz isso no mar e tenho quase certeza (certeza mesmo só os peixinhos, não?) que ela tava transando mesmo e bem gostoso ainda…
Não que isso tenha alguma coisa haver quanto a minha opinião quanto a ela (coisa que nunca foi profunda mesmo).
Se o vídeo mexeu comigo? Claro, tenho que experimentar a praia novamente…
Jajajaja!
Como eu já disse, ela foi burra e esperta ao mesmo tempo… muita gente estava apoiando-a - inclusive eu - até que ela inventou aquela babaquice de bloquear o YouTube.
Suponho que o apoio não foi suficiente, né…
eu tambem apoio ela.
pq ñ e toda mulher ki tem
a mesma coragem q ela teve
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