A Duração do Tempo - Quando Você É Criança - Férias, Picolés, Micuins e Rosetas
Por Nospheratt • Oct 1st, 2007 • Seção: Pequenos Pecados, Grandes Prazeres
Gente, eu acordei hoje e era segunda-feira. Alguém mais perdeu a semana passada também?
Pra piorar, acordei hoje e o calendário diz que é dia 1 de Outubro!? Alguém mais tá com uns meses anteriores faltando?
Realmente, o tempo é uma coisa relativa. E não é só aquela coisa de que “a duração de um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está”. A duração de um minuto, uma semana, um ano, depende de que idade você tem.
Quando somos crianças, o tempo é uma coisa meio inexistente. O ano se divide em duas partes: ano letivo, e férias. E as duas partes são longas, quase infindáveis. O tempo anda num passo agradável, compassado, “velocidade de cruzeiro”.
Quando você vai ao colégio, as aulas é que marcam o tempo; tudo é harmonioso. A aula e o recreio se sucedem, no tempo certo. Chega sexta-feira, e você é feliz porque “amanhã não tem aula”. Ou de repente tem; eu cheguei a ter aula aos sábados, mas as aulas de sábado eram uma coisa legal, eram diferentes das aulas dos outros dias. Porque? Porque era sábado, oras!
Quando você vai ao colégio, você nunca chega na sexta-feira se perguntando “o quê diabos aconteceu com a semana?” e pensando em que não conseguiu fazer tudo o que queria ou devia. O tempo e você mantêm uma relação de cooperação, natural e fluída como um rio.
Nas férias, você é livre. Três meses são uma longa eternidade de puro prazer. Você tem TRÊS MESES para vagabundear, dormir até mais tarde, brincar, assistir televisão até que seu cérebro saia pelas orelhas. E nessa época, três meses equivalem à mais ou menos um ano de adulto.
Algumas da minhas lembranças mais felizes são desses verões eternos. Estar sentada na porta de casa de short e blusinha, esperando ouvir a corneta do vendedor de picolés. O homem vem, empurrando o carrinho, aí você sai correndo, aquela delícia de escolher o sabor - que dilema cruel - e depois sentar na varanda de novo, tentando não se lambuzar muito, e devorar o picolé antes que ele derreta. Quando você é criança, a felicidade é tão simples quanto um picolé que custa uns centavos.
Ou então, passar a tarde na piscina (de plástico mesmo). Minha mãe costumava nos trazer gelatina com merengue para comer na piscina mesmo, e era uma festa. Sinto saudade disso até hoje. E não adianta fazer a bendita gelatina com merengue; não é a mesma coisa. Nada é a mesma coisa.
E brincar de guerrilha, então? Ás vezes o capim (não era grama, era capim mesmo o que havia no pátio de casa) crescia bastante; então podíamos “brincar de guerrilha”. A brincadeira consistia simplesmente em se arrastar, de barriga no chão, no meio do capim (quando estava alto o suficiente para nos ocultar), evitando que o outro nos visse. Essa bobagem era uma das coisas mais divertidas que fazíamos.
Nos arrastávamos no capim até que a gente não aguentava mais a coceira provocada pelos “micuins” (Alguém sabe o que é isso? O nome na realidade é de um tipo de carrapato, mas quando eu era criança usávamos esse nome para uma outra coisa misteriosa que existe no capim e causa coceira). Aí a coisa ficava feia, porque todo mundo queria entrar no banho primeiro; quem ficava em segundo ou por último já começava a choramingar, prevendo o sofrimento até poder entrar na água.
Que eu lembre, duas das piores coisas da infância eram essas: a coceira dos micuins, e as rosetas. Detesto com toda minha alma, até hoje, cravar rosetas nos pés.
E como o tempo hoje não é o mesmo de quando eu era criança, este post continua no próximo episódio, neste mesmo bat-canal, neste mesmo bat-horário.
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Nospheratt é mulher por nascimento e vocação, irônica por diversão e hobby, brasileira inveterada, filósofa nas horas mais impróprias, blogueira de profissão, escritora e poeta pela pura necessidade de expressar seus oceanos interiores.
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rosetas e micuim! quanto tempo não ouvia falar nisso, criatura! sem contar as rodas que se tirava dos joelhos correndo atrás de pneu que era rodado com a mão (se ficava suja?imagina!) ou caindo dos balanços feitos com corda grossa e uma tabuinha como assento! bons tempos. never more, my friend. hoje é só playstation, como pediu um baianinho que pede moeda em semáforo e que vi hoje num noticiário. mundo perdido!