Mulheres Decepadas
Por Lucia Freitas • Jan 22nd, 2008 • Seção: Sob Fogo
Photo Credit: Brian Snelson
O tema é antigo. Você olha para a mulher e ela parece normal. Só parece. Na adolescência, a frio, o seu clitóris foi extirpado. É uma tradição, dizem suas tribos. É uma crueldade, gritamos nós, aqui no meio da outra cultura. Foi maravilhoso ler, na versão impressa da revista Marie Claire de Novembro - não, queridas, não tem link, a matéria é fechada, mas tem uma beeem velha, de 2000 - uma reportagem muito sensível sobre o trabalho da ONG.
O primeiro resultado do Google, por incrível que pareça, vale a pena. É o artigo da Dra. Halimatou Bourdanne, da Costa do Marfim, que explica passo a passo cada tipo de circuncisão.
Difícil mesmo é ver o rosto das meninas, publicados na revista do NY Times ontem. Na África Ocidental, há vários grupos étnicos em que 100% das moças são circuncidadas. Algumas, a seu pedido. O instrumento? A velha lâmina de barbear (daquelas que vovô usava), nenhuma anestesia e a vontade de cada uma dessas mulheres de ser circuncidada. Por ignorância, elas acreditam que só assim podem engravidar ou ter filhos homens… Santa ignorância! É preciso educar.
O final do texto da Dra. Bourdanne explica: “A luta contra a circuncisão feminina é certamente algo a longo prazo mas que vale a pena. É apenas então que certas mulheres conhecerão a felicidade que um casal experimenta em sua intimidade e de estarem livres dos riscos para a sua própria saúde e de seus bebês.”
Sim, queridas leitoras, a circuncisão feminina prejudica o parto destas fêmeas humanas.
Desculpem o texto curto. É emoção mesmo. E a vantagem da web: a página não fica marcada com as nossas lágrimas de compaixão pelos nossos semelhantes.
A conversa trouxe um poema, atribuído ao pastor Martin Niemöller:
When the Nazis came for the communists,
I remained silent;
I was not a communist.
When they locked up the social democrats,
I remained silent;
I was not a social democrat.
When they came for the trade unionists,
I did not speak out;
I was not a trade unionist.
When they came for the Jews,
I remained silent;
I wasn’t a Jew.
When they came for me,
there was no one left to speak out.
Eu publiquei algo bem parecido com isto no Puzzle:
Na verdade, eu acho que é mesmo do Maiakovski. Ou será que ele adaptou o alemão?
Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem.
Pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.
Eu, louca que sou, proponho uma forma de luta, de educação via web. Aqui no Deusário, que é lugar de mulher briguenta. E quem quiser e puder colaborar, entre na roda através dos comentários.
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Lucia Freitas Mulher, blogueira e jornalista. Escreve muito. Seus assuntos preferidos? Quase tudo. Adora uma boa discussão, conversar com amigos, novidades, gadgets.
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Lu tô dentro e nessa briga pode contar comigo. bj
bj
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Lucia, parabéns! faz tempo que não leio nada desse tipo, e acredite, apesar de eu ser machista (a sociedade me fez assim Hehe) concordo plenamente com tudo o que diz.
É uma tristeza o que acontece com essas mulheres em países assim. Mas fico feliz quando descubro que há gente assim como você que batalha por isso, e saiba: tem o meu total apoio!
Correção: “Contra isso” e não “por isso”.
A primeira viz que li sobre esse assunto foi nessa revista que vc disse. Se perdeu em uma das minhas mudanças, mas eu não esqueço o meu sentimento toda vez que leio sobre esse assunto. E quando eu vejo fotos dessas mulheres eu tb choro.
Foram lançados no Brasil alguns livros sobre esse assunto nos últimos meses. Um deles - se não me engano - se chama Cortada. Vou dar uma pesquisada e te falo…
Agora só viajando um pouco? Vc acha que esse tipo de violência é muito diferente de prender meninas quando estão perto de menstruar, ou matá-las ao nascer apenas pelo fato de serem meninas? Isso ainda acontece no Brasil sabia?
Bjins
O nome do livro é Mutilada de Khady. Dá uma lida depois.
Bjs
Acho que a coisa mais triste que pode existir. Já pensou uma mulher não saber oque é orgasmo só pela ignorãncia dos maiorais? Tenho certeza que se cada uma delas antes de ser circuncidada experimentasse um orgasmo se quer, nunca deixaria que lhe extirpassem o clitóris…que barbárie…