Da Mulher, Do Ritual e Da Angústia
Por Liliana Pellegrini • Jun 30th, 2008 • Seção: Opinando
Photo Credit: Rasbcn
Angústia é um sentimento desconfortável que aparece quando não sabemos o que fazer em determinada situação.
É como um alimento que não consegue ser digerido e fica virando no estômago para lá e para cá deixando um amargo na boca e que não nos deixa esquecer que ele está lá.
É uma energia sem destino que queima por dentro. Que consome.
É uma sensação acompanhada de um grande ponto de interrogação.
Da mesma forma que a Angústia aparece sem avisar. Ela simplesmente aparece. Queremos que ela suma como apareceu. E esta sensação de mistério interno, de desconhecido geralmente nos remete a um desejo de respostas como por mágica. De soluções mágicas. Como se pudéssemos sair do feitiço que a Angústia nos colocou.
Geralmente, a resposta para o problema que nos angustia aparece com o passar do tempo.
Porém, o estado de angústia nos deixa cegos e surdos para estas respostas justamente porque estamos angustiados demais.
E caímos num círculo vicioso.
Há milênios o ser humano precisa fazer algo para liberar a angústia. Para não ficar sem fazer nada. E foi assim que surgiu a Magia: para movimentar as energias resultantes da angústia interna de determinada situação. E da Magia fomos para a Ciência. A origem de ambas é a mesma: Angústia de fazer algo sobre alguma coisa.
Mas eu quero falar da magia.
Porque ela ainda tem lugar hoje. Pois a ciência ainda não resolveu todos os problemas e ainda há coisas que nos angustiam e precisamos de “solução mágica” como forma de alívio de angústias.
Quando não temos uma linguagem científica para lidar com um problema, fazemos uso de outras linguagens. E a linguagem mágica é ainda muito usada nos dias de hoje.

Photo Credit: Jim Reeves
Oráculos, rituais, religiões, rezas, mantras, promessas, simpatias, feitiços… Tudo isso é válido para se lidar com a angústia interna.
Se funcionam? Claro que sim!
Ao realizar os rituais escolhidos a energia sem destino adquire um fim e é trabalhada, transformada. E isso alivia a angústia. E o tempo passa. Que é outro fator importante para o cessamento da angústia: o tempo passar.
Quando eu era jovem eu fui numa mulher (são sempre mulheres) para saber de minha vida amorosa que me angustiava muito porque outra mulher havia jogado uma maldição em mim: que eu não teria ninguém (maldições são terríveis!). A tal mulher que eu consultei mandou eu fazer um belíssimo ritual: eu tinha que andar por todos os cantos de minha casa com uma panela de água fervente com diversos ingredientes aromáticos dentro numa infusão bem cheirosa e agradável, recitando preces todos os dias durante nem lembro quanto tempo.
Eu me lembro o quanto foi bom realizar este ritual. O quanto me ajudou saber que estava fazendo algo bom para mim. O quanto era bonito tudo aquilo. O quanto eu me sentia bem.
Eventualmente, a maldição foi quebrada dentro de mim. E me senti livre.
A magia não é privilégio das mulheres, mas é característica delas pela facilidade que elas têm de entrar em contato e estarem mais permeáveis a seus sentimentos. Assim, as mulheres têm suas angústias mais a flor da pele e costumam lidar com elas com mais desenvoltura que os homens, mais fechados aos seus sentimentos.
Assim, enquanto houver pessoas angustiadas no mundo, a magia continuará trazendo alívio.
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Liliana Pellegrini é médica e blogueira, já fez um monte de coisas, já viveu muito, já foi para um monte de lugares e já viu quase de tudo.
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