O Perdão e a Raiva
Por Nospheratt • Jul 11th, 2008 • Seção: Emoções
O perdão. Perdoar a quem nos tem ofendido… Perdoar aos que nos feriram, magoaram, prejudicaram, sacanearam.
Mesmo aos que o fizeram sem dó nem piedade, com intenção, com prazer.
Aos que nos pisotearam a não mais poder, que nos transformaram em pano de chão, em trapo, em tapete de limpar as botas.
Eu não. Eu não perdôo.
Não que eu não tenha capacidade de perdoar. O que não tenho é o desejo, a disposição.
Eu só perdôo, quando o perdão é bom pra mim. E nem sempre perdoar é bom para mim, apesar do que a nossa cultura católica nos impinge.
Perdoar é benéfico para mim quando a ofensa, a ferida é pequena. Quando foi feito sem intenção, por uma pessoa que me quer bem e a quem eu estimo.
Perdoar Não Significa Esquecer
E veja bem: perdoar não significa esquecer. Eu nunca esqueço.
Quando se esquecem as coisas, não aprendemos nada com elas - o sofrimento se torna inútil, pois não nos ensinou nada. Nem sequer nos deu ferramentas para reconhecer a mesma sacanagem no futuro.
Esquecer significa que falta um elemento que deveria fazer parte da equação que você usa para avaliar essa pessoa, para decidir quanto pode confiar nela. Quão vulnerável pode se mostrar a ela.
Por outro lado, temos as grandes ofensas, as feridas que levam anos para cicatrizar; aquelas que quase levam à morte - física ou da alma.
E temos ainda as feridas recorrentes, os golpes que se repetem ao longo da vida, que se tornam um hábito… mas que continuam a causar dores profundas.
Essas eu não perdôo. Nunca perdoarei.
A Raiva Como Combustível
Mas tenho um segredo. Eu não deixo isso lá dentro, em forma de ressentimento, me carcomendo como um câncer; não permito que essas feridas e cicatrizes sejam uma desculpa para ter pena de mim mesma.
Eu transformo isso em raiva. E a raiva é combustível. E esse combustível me leva a frente, me permite dar mais um passo, me permite não desistir. Me faz mais forte.
O perdão não é uma panacéia universal, não é obrigatório; nem sempre é desejável perdoar. Há que se aprender a usar o perdão com sabedoria e inteligência. E há que se aprender a utilizar de forma produtiva, o que fica conosco quando decidimos não perdoar.
Do contrário, o perdão é uma fraqueza, um hábito cumprido por obrigação que só nos faz mais frágeis, vulneráveis e machucados.
Photo Credits: Katie Tegtmeyer - Stéphane O
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Nospheratt é mulher por nascimento e vocação, irônica por diversão e hobby, brasileira inveterada, filósofa nas horas mais impróprias, blogueira de profissão, escritora e poeta pela pura necessidade de expressar seus oceanos interiores.
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