
Foto: Renato Targa, no Flickr, em CC
Semana passada, estava conversando pelo IM com a Maysa e ela perguntou: como é trabalhar sem ter carteira assinada. Como o tempo é curto para todas nós, em vez de contar só para ela a minha vida de empresária autônoma, prometi um post aqui no Deusario, pois sei que muitas deusas também estão nesta batalha.
Comecei a minha jornada autônoma em 2004. Em setembro daquele ano literalmente cavei uma demissão de uma assessoria de imprensa – coisa que odeio fazer. Saí de lá com 5 frilas embaixo do braço para revistas bem bacanas e achei que daria conta de viver sobre as minhas próprias pernas às custas da nossa moderníssima imprensa. Confesso: não funcionou como eu desejava.
Um amigo querido, com quem desenvolvi um projeto bem bacana, o TechnoPersonal (o site não é legal, mas era o que eu podia fazer – e ele pagar – na época), me aconselhou: faça coaching e defina o que quer. Fui a duas, entrevistei e acabei escolhendo uma que de certa forma não funcionou… Mas ajudou – e muito – a saber o que quero e não quero e como lidar com questões que não são fáceis quando a gente está “por conta própria”: saber cobrar.
[Aqui abro um parênteses.] Enquanto eu buscava um caminho, havia o conhecido pântano das contas a pagar e correr atrás de trabalhos e clientes. E já blogava. Foi o que me levou aos grupos de discussão, LinkedIn e outras redes. Um novo universo estava ali, na ponta dos meus dedos. Juntei 2 e 2. Eu amo a internet desde que a conheci, em 92/93, através de um acesso via Embratel discado; escrevi muitas matérias sobre internet. Sempre adorei o conceito da rede, a liberdade, a possibilidade de aprender e de colaborar. E resolvi investir a Conectiva (nome fantasia da minha empresa) nisso. Parti de tudo o que aprendi com a Regina Favre nos Seminários de Anatomia Emocional e sem muito planejamento, surfando na vida que acontecia, fui em frente. [Fecha parênteses ]
O passo zero de ser empresária é definir o que você faz. Eu sei fazer muitas coisas. Muitas coisas mesmo. Entre um universo de possibilidades, precisei escolher o que fazia melhor: escrever, registrar (fotos e vídeos), criar projetos e ensinar. Depois, é preciso ter clientes – e ter paciência e cuidado para se apresentar e conquistá-los. Isso posto, é preciso criar presença. Colocar site no ar foi o pedaço (para mim) mais fácil da brincadeira. Claro que sem a ajuda dos “amigos da blogosfera” (impossível citá-los todos Maysa…) nada do que faço seria possível. A Conectiva foi construída para ser um gigantesco hub – uma central distribuidora e produtora de trabalho, na base do ganha-ganha. Eu sempre tenho que pensar e implementar os projetos.
Esta é a parte boa. A ruim eu já tinha feito em 2004: abrir empresa, ter CNPJ, escolher contador, objeto (uma empresa de comunicação não pode ser Simples, sabe?). Além disso, é preciso lidar com notas fiscais, o seu envio, o recebimento dos valores. Ao custo de vida soma-se (com uma clareza que é assustadora) o pagamento de impostos – municipais e federais, no meu caso. Ter sócia, abrir a empresa, ter uma conta pessoa jurídica, planejar as finanças são detalhes que se tornam parte da vida. E, cá entre nós, não são o pedaço mais bacana da brincadeira (para mim).
Existe uma parte importante, que estou aprendendo agora: a separação (física e financeira) entre você pessoa física e a pessoa jurídica. O que é Conectiva? O que é Lucia Freitas? Afinal, eu sou uma empresa de uma mulher só – com colaboradores, claro, mas em modo free-lance – e estes papéis tendem a se confundir. E a coisa fica bem pior porque o escritório funciona na minha casa. A disciplina e a atenção com os espaços têm que ser gigantescas. Senão vira uma lambança absoluta e total.
O lado bacana é que a empresa serve de porto seguro para mim e para os projetos amigos. O Bê-a-Blog, da Nosphie, por exemplo, foi viabilizado financeiramente através dela. O Manoel Netto pôde manter sua coluna de tecnologia no Yahoo! através da Conectiva. É a mesma empresa que se responsabiliza e faz contratos de serviços para o Ladybug, para o LuluzinhaCamp, os BlogCamps que organizei e o que mais vier pela frente.
Trabalhar por conta própria tem seus pontos altos. E tem também os baixos – principalmente se você não matar pelo menos um leão por dia. A vida pessoal, principalmente quando você não monta um escritório, tende a atravessar o seu trabalho constantemente. E de novo: é preciso atenção para não se deixar levar. O que eu gosto particularmente é que estou cercada pelos meus gatinhos, estou em casa – não, não trabalho de pijama, eu me arrumo como se fosse para a rua -, e posso atender meus clientes com o que mais prezo: qualidade e tempo. Eu tenho todo o tempo para cada um deles.
Ainda tenho muito chão pela frente. Projetos para colocar no ar, propostas para fechar. E com a ajuda dos amigos, na rede e fora dela, cada um deles sai no seu tempo. Só recomendo, a você e a todos os leitores, um cuidado que eu não tive no começo: guardem dinheiro, sempre. Andar por conta própria significa, sim, receber um não quando você precisava de um sim. E ter que atender demandas gigantes, todas ao mesmo tempo, quando você imaginava que estaria de férias.
Aliás, férias de verdade eu não tenho desde 2004. Não sinto muita falta, com este tanto de feriados que temos neste Brasil – podem ser alegria pra quem tem carteira assinada, mas para nós, significa parar de trabalhar e/ou não fechar negócios.
Mais que isso. Eu penso em negócios quase como se cultiva relações e/ou plantações. E sou natureba. Cada sementinha é plantada com amor. Nem sempre vingam, às vezes acontece de só muito tempo depois se transformarem em árvores. Mesmo assim, eu sigo em frente. Porque a vida é muito maior do que uma carteira de trabalho assinada. Para quem está disposto a arriscar, claro.
Acho que o básico está aqui. Alguma outra pergunta?
Foto: Renato Targa, no Flickr, em CC
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Lucia Freitas Mulher, blogueira e jornalista. Escreve muito. Seus assuntos preferidos? Quase tudo. Adora uma boa discussão, conversar com amigos, novidades, gadgets.
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Lu, super obrigada! Saber da sua experiência é muito importante pra mim. =)
Bjks!
O que vc faz no momento.
Nossa adorei seu post…sou uma pequena empresaria e trabalho em casa tb…fico louca muitas vezes, mas por outro lado, sou apaixonada pelo q faco…gostei muito do seu blog. Parabens!!! Bjinho e muita sorte
Estou começando agora como tradutora freelancer e achei seu texto muito inspirador! dá mesmo vontade de ir além nesse lifestyle!
beijo!
Sensacional esse texto! Muito bom mesmo, parabéns Lucia!
Desejo muito sucesso pra vc e sua empresa! =)
abraços
Daniel
A separação entre o pessoal e o profissional é mesmo o mais difícil para o pequeno empresário. Ainda mais quando se trabalha em casa. As tentações e as distrações são inúmeras e o apelo financeiro do bolso vazio da pessoa física versus o caixa cheio da pessoa jurídica naquele meio de mês podem ser terríveis.
Mas com talento (e isso você tem de sobra) e perseverança, se consegue vencer essas barreiras e levar uma vida muito melhor do que quando se tinha a tal da “carteira assinada”. Pesando benefícios e malefícios, os primeiros superam de longe os problemas; sem contar com a realização pessoal que é inigualável.
Um abraço e sucesso.
Olha, não sei se vc vai ler meu comentário… Postagem antiga e tal… Enfim! Admiro muito sua coragem e estou no mesmo barco, pedi demissão de um emprego que estava me adoecendo pra caramba, sei fazer muitas coisas, porém ainda não tenho um segmento que me impulsone a investir a “viver de” e isso esá sendo muito ruim pra mim. Muitas dívidas, muitos negócios diferentes… Trabalho com teatro e muitas coisas ligadas a artes, vendo algumas coisas, escrevo artigos, resenhas e faço revisão de trabalhos acadêmicos. No momento somando todas as atividades não dá pra me manter e me dedicando somente a uma delas também não. Seria cômico se não fosse trágico. Mas enfim, parabéns por tudo!
Abraços,
Hellen
Lúcia,
a mulher-serelepe! Ela é pura energia. Acreditem. Preciso muito me disciplinar – ainda deixo a cozinha entrar nos assuntos do micro e nas meus trabalhos manuais… Mas eu chego, lá!
beijos, pra lá de atrasados
Como é bom ler sobre experiências como a sua. Serve ao mesmo tempo como estímulo em relação às vantagens e como consolo em relação aos desafios constantes. Legal mesmo!
Mas acho que tudo vale a pena quando o assunto é liberdade e crescimento pessoal.
Sucesso!
[...] de falar sobre a Vida Sem Carteira Assinada, eu ia deixar o assunto de lado… Mas dei de cara com um post inspirador da Christine Kane (que [...]
Olá! Esse blog tem sido um Farol para mim. Nossa… Decidi, nesse ano, começar um negócio próprio. Ainda estou na fase do projeto, quer dizer, já fiz bastante coisa, mas está tudo na fase inicial. Estou aprendendo a cobrar ainda, aliás, estou aprendendo tudo na raça até porque não tenho nenhuma formação em área administrativa. Mas, estou descobrindo um mundo novo. Sim, precisamos ter muita coragem, e trabalhar muito e sempre. A fase ruim para mim está sendo a da organização das finanças… eu super fiquei no vermelho – tropeços de uma pessoa que sempre trabalhou com carteira assinada… mas, o que mais importa nisso tudo é que eu acredito no meu sonho e sei que com trabalho, estudo e dedicação, chego lá! Que bom poder conhecer você! Agradeço o post!
Olá, Lótus.
Aqui a coisa é muito parecida. Lidar com as finanças – e separar negócio do pessoal, principalmente quando somos um negócio pequeno/minúsculo – são desafios diários, que a gente tem que ter muito claro.
Fico muito feliz que a minha experiência lhe tenha sido útil. Gostaria de saber mais alguma coisa a respeito? Fale mais do seu negócio.
Abraço
Pesquizando cai no seu blog e achei incrivel seu post,eu to tentando entrar nesse Mundo de empreendedora.Mas ta complicado, mas ler o seu texto me ajudou a organizar minhas ideias.