Continhos de Fadas Cretinas – Esperança

esperança

Era uma vez uma princesinha chamada Esperança.

Esperança era uma mulher apaixonada. Coisa comum em se tratando de princesinhas de conto de fadas, era vítima de uma terrível maldição: um amor que não lhe convinha. O objeto de seu amor, aquele que deveria ser seu príncipe encantado, não passava de ser um plebeu vagabundo, sem demasiado gosto pelo trabalho, mas com um gosto excessivo pela bebida e pela mulher alheia.

Esperança sofria com os defeitos de seu amor; frequentemente, sob os efeitos da bebida, o príncipe se voltava contra ela, descarregando sobre a pobre princesa seu desencanto com a vida. Frequentemente, Esperança encontrava rastros de encontros com outras mulheres nas roupas do príncipe.

Esperança lavava aquelas máculas, e tudo perdoava; sempre movida pelo nobre sentimento que lhe dava nome: a esperança. Esperança tinha esperança de que um dia seu príncipe mudaria; um dia, talvez não muito longínquo, o galã ingrato despertaria e veria a verdade. Quando esse dia chegasse, ele perceberia a enormidade do amor de Esperança, compreenderia o imenso valor de sua paciência, sua tolerância, sua submissão.

Nesse dia, a vida de Esperança por fim seria perfeita. Tranformado pelo amor, o príncipe trabalharia, esqueceria da bebida e das outras mulheres, e velaria por Esperança com o mesmo entusiasmo abnegado que ela lhe dedicava. Então eles seriam felizes para sempre.

Enquanto esse dia não chegava, Esperança se aferrava à um único pensamento:

“Ele vai mudar.”

E se matava de trabalhar para pagar as contas, limpava e cozinhava, lavava as nódoas de batom alheio das camisas do príncipe, disfarçava com maquiagem as manchas roxas que enfeiavam sua pele clara.

Os anos se passaram. O príncipe não mudou; mas um dia, quando Esperança já deixara para trás a flor de seus quarenta anos, ele foi embora.

Abandonada, trocada por uma moça que contava a metade de sua idade, Esperança viveu o resto de seus dias esperando. Inpossibilitada de negar seu próprio nome, sempre guardou a esperança de que o príncipe mudasse… e voltasse.

Mas o príncipe nunca voltou. E Esperança viveu sozinha, esperando, para sempre. Fim.

Moral da História

Demasiadas mulheres vivem como Esperança: na eterna esperança de que seu príncipe “vai mudar”. Imersas em uma fantasia criada por si mesmas, se negam à ver aquilo que é evidente: ele não vai mudar, pois não tem intenção alguma de mudar.

Pior ainda, se negam à ver o quanto essa relação é prejudicial à si mesmas. Esse tipo de relação sempre é prejudicial; seja pelo abuso psicológico, emocional ou físico do qual a mulher é vítima, seja porque a manutenção desse relacionamento a impede de encontrar um parceiro disposto a manter uma relação sadia e satisfatória.

Se você pensa com frequência “Ele vai mudar” ou “Quando ele mudar (inserte aqui descrição de uma situação perfeita e agradável)”; se você acha que seu parceiro/namorado/marido um dia vai perceber e valorizar tudo o que você faz por ele (embora ele não perceba nem valorize nada disso no momento); se você vive pensando nessas coisas, e tem certeza de que quando essas fantasias se tornarem realidade, tudo será perfeito e vocês viverão felizes para sempre…

Acorde!!!! Ele não vai mudar.

Dê-lhe um pontapé na bunda, e livre-se dele. Talvez ainda haja tempo para que você seja feliz para sempre, com um homem de verdade… numa relação de verdade.

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Nospheratt

Nospheratt é mulher por nascimento e vocação, irônica por diversão e hobby, brasileira inveterada, filósofa nas horas mais impróprias, blogueira de profissão, escritora e poeta pela pura necessidade de expressar seus oceanos interiores.
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7 Comentários em “Continhos de Fadas Cretinas – Esperança”

  1. Lu says:

    “Os homens casam-se esperando que elas não mudem – e elas mudam.

    As mulheres se casam esperando que eles mudem – e eles não mudam”

  2. Sarah says:

    adorei adorei adorei!

  3. Sarah says:

    Quando os homens encontram mulheres que não mudam, simplesmente, eles não sabem continuar, toda aquela chama picante e criatiava, tornam-se os mais adeptos da rotina…

    Adorei esse blog.

  4. André L. Soares says:

    Bom dia! Estou dando um ‘passeio geral’ pelos blogs relacionados à literatura, principalmente poesia e prosa. Gostei muito do seu blog. Vou adicioná-lo ao meu blog, bem como favoritá-lo no ‘blogblogs’, para que possa visitá-lo mais vezes. Quando puder, visite também meu blog, no endereço: [ http://poemasdeandreluis.blogspot.com ]. Sinta-se à vontade… a casa é sua,… e, gostando,… por favor, também adicione meu blog e ao seu ‘blogblogs’, ‘techinorati’ etc. Vamos tentar ampliar a rede de intercâmbio artístico-cultural, influenciando-nos e aprendendo mutuamente. Grande abraço!

  5. lumaranhão says:

    Amei o conto da princesa Esperança.Quantas esperanças se perde na vida e ainda insistimos em acreditar nelas?

  6. Nospheratt says:

    Lu: Porquê será que a gente insiste nessas besteiras?

    Sarah: :) É verdade. E muitas vezes, começam a desgostar e a se queixar justamente do que os atraiu, em primeiro lugar. Por exemplo: se apaixonaram pela mulher porque ela andava sempre bem vestida, com saias curtas e decotes insinuantes… e depois, querem que se vistam como professorinhas aposentadas, pra ninguém olhe pra elas. Tenha paciência!

    Volte sempre, estou de volta e vou dar uma melhor atenção pra vocês! Promessa! :)

    André: Obrigada, fico feliz que tenha gostado. Assim que puder vou visitá-lo!

    lu maranhão: Insistimos em muita, muita coisa que não vale à pena ou não existe mais. Acho que às vezes a gente não sabe distinguir entre esperança, teimosia e burrice!

  7. Dani says:

    Nospheratt,

    Acabei de descobrir o Deusario e estou adorando!!!!!!!!!!!!!!
    Adoro seus textos, você fala com muita propriedade sobre todas nós!
    É muito legal ver escrito por alguém, as “trovoadas” de pensamentos que, no dia a dia, não compartilhamos com ninguém!
    A alma realmente fala uma só língua! Namastê !
    Abração

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