Cuide de Você.

Recebi uma carta de rompimento.
E não soube respondê-la.
Era como se ela nao me fosse destinada.
Ela terminava com as seguintes palavras: “Cuide de você”.
Levei essa recomendação ao pé da letra.
Convidei 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão,
para interpretar a carta do ponto de vista profissional.
Analisá-la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la.
Entendê-la em meu lugar. Responder por mim.
Era um maneira de ganhar tempo antes de romper.
Uma maneira de cuidar de mim.

Sophie Calle

Fonte: Divulgação.

Estive em São Paulo recentemente e fui ver a exposição da artista plástica Sophie Calle entitulada: Cuide de Você. A exposição é composta das cartas, relatos, interpretações, análises de várias mulheres, entre elas uma ave que come a carta, mastiga-a com vontade. Ao adentrar a exposição estamos num grande quarto quadrado com textos expostos na parede, em diferentes tamanhos e formatos. Num outro canto há uma série de vídeos onde podemos ver mulheres fazendo música, dançando, cortando legumes e interpretando a carta. A tão falada carta. A carta que iniciou o ponto final num relacionamento e que deu início a uma exposição que expõe os sentimentos de um homem e de várias mulheres.

Você pode ler uma tradução da carta aqui. Não é literalmente a mesma da exposição, mas nada de muito siginificativo foi modificado. Clicando na imagem pode-se ler o original em francês.

Sophie não dá nome ao autor da carta, chama-o de X. Porém, todos sabem que ele é o escritor Grégoire Bouillier, que possui um livro que conta como foi o seu encontro com Sophie. Ambos usam a vida mais íntima e pessoal para fazerem sua arte. Fiquei muito curiosa ao saber da exposição, pois tudo é muito explicito e ao mesmo tempo cada mulher convidada interpreta da maneira que seu profissão exige. A delegada monta um inquérito, a professora de crianças faz uma lista de perguntas interpretativas simples, as atrizes interpretam, as musicistas fazem músicas, a revisora corrige os erros. Corre-se os olhos pelo francês daqueles relatos escritos e não se consegue enxergar tudo. Na minha opinião, a melhor resposta escrita é a da adolescente que simplesmente diz: “Ele se acha”! O que chama mais atenção parecem ser os vídeos em que as mulheres transparecem por meio de movimento, cor, imagem, som o que a carta provoca.

Acredito também que a exposição é diferente para homens e mulheres, as sensações provocadas não são as mesmas. Talvez porque realmente tratemos de modo diferente o rompimento. Fui a exposição com um amigo e ele achou tudo muito bobo, mulheres fazendo papel de idiotas. Porém, para mim fazia todo sentido. Já tive dores de separações que poderiam ter virado uma longa exposição. Uma delas é como uma cicatriz eterna no peito, que só de lembrar sinto o medo de sentí-la novamente levando sempre água aos olhos. Superei e não guardo mágoas, a lembrança não é do relacionamento, mas da dor. Talvez não seja o caso de Sophie nesse rompimento, talvez ela tenha canalizado sua dor para a arte. Há um vídeo em especial que me chamou a atenção, o de uma mulher que corta legumes enquanto lê a carta. Ela é caricata, porém são nos pequenos gestos que morremos um pouco após a separação. Separar-se significa que não farei mais a sobremesa favorita dele, que não me preocuparei em achar seus discos preferidos, em saber qual filme ele quer ver, qual doce gostava na infância.

Há também um blog que reúne os depoimentos enviados pelas pessoas que visitaram, ou não, a exposição. Ao chegar na exposição, você recebe uma cópia da carta e pelo blog pode publicar sua interpretação ela. E ao final da exposição você é convidado a escrever uma carta de rompimento. Achei interessante essa última ação, ao final você também tem que romper com alguém. Essa talvez tenha sido a maneira que Sophie encontrou para romper com Gregoire e também preservar um pouco de seus sentimentos. Foi para onde ela talvez tenha levado seu amor. Pois, é sempre comum pensar para onde vai todo aquele amor quando uma relação acaba. Sempre achei que morre um pedaço de mim junto com o fim de uma relação, pois a partir dali não poderei mais ser a mesma.

E a carta? Que na verdade foi um e-mail. Foi a melhor maneira de terminar a relação? Para mim pareceu que ele ainda queria conversar, mas era mesmo o fim, então, para quê prolongá-lo. Existe a melhor maneira de se terminar um relacionamento? Carla Rodrigues fala que uma carta é um gesto que muitas mulheres que ficaram no silêncio teriam adorado.

Agora, pensando sobre meus sentimentos na exposição percebo que tudo faz parte de uma grande investigação amorosa. Porque o amor é sempre um mistério, porque um amor que nasce entre pessoas não é estável como parece, pois só os sentimentos podem nos fazer tomar atitudes imprevisíveis. Sophie e Grégoire se reencontraram na Feira Literária de Paraty desse ano. E você pode ver Sophie explicando um pouco mais sobre o fim e qual a relação com seu trabalho.

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Srta. Bia

Srta. Bia Escreve cartas, joga gamão, lê a sorte no danoninho e faz amarrações para o amor.
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