Por Que Sou Gorda, Mamãe?

Por Que Sou Gorda, Mamãe?

A primeira impressão que tive ao começar a ler o livro de Cíntia Moscovitch é que toda a trama se basearia numa discussão de relacionamento com a mãe da protagonista. Porém, o livro começa com a confissão de que a protagonista engordou vinte e dois quilos, ela então decide ir ao médico e fazer uma dieta. Mas eis que a partir do primeiro capítulo aparece o tema real, o livro é essencialmente a biografia de uma família judia, imigrantes da Romênia que vieram para o Brasil na época da segunda guerra. São as lembranças dessa família, das histórias, reminiscências e causos que se desenrola a trama, pontuada de maneira grave pelo relacionamento com a mãe e o objetivo de perder peso.

“Uma pessoa é obesa por alimentação inadequada, sedentarismo, mau funcionamento metabólico e herança genética – além daquelas variantes nebulosas, como ansiedade, depressão e quejandos. Meu metabolismo sempre funcionou bem, obrigada – e esse é o único determinante de obesidade do qual me escapo. Simplificando: sou gorda porque como e porque minha conformação genética quer assim. Talvez eu venha a acreditar nisso. Sabendo ou não como engordei, a única coisa que pode ser mudada é a maneira de me alimentar. E mexer o esqueleto: caminhadas de uma hora, quatro vezes na semana. Detesto caminhadas.” (pg. 16)

O livro segue o estilo diário, ou talvez seja um conjunto de cartas endereçadas a mãe, porém só parece ocorrer no tempo presente nos momentos das idas ao médico para verificar como anda a balança ou nos dilemas alimentares do dia-a-dia. A ficção nasce do desejo de compreender.

“Há um livro a ser escrito, e nele os fatos serão fruto de prestidigitação, ainda que imperfeita. Respostas possíveis, ilusãoo para secar as mágoas e o corpo. O prólogo termina Depois já iniciou. Começo num posto de interrogação. Por que sou gorda, mamãe?” (pg.19)

Uma mãe que é extremamente amorosa, que ama e é amada por seus filhos, mas que cobra, que não esquece, que parece rancorosa e infeliz. E, como tantas outras mães da literatura ou do cinema, parece descontar na única filha todas as infelicidades de uma vida. Exagero talvez, mas o livro é monofônico. Encontramos também histórias sobre as avós, as tias, formando vários elos femininos para quem a autora faz a pergunta do título sem grandes respostas. Há também avõs, pais, tios, irmãos e sobrinhos. Apenas o pai parece ter dado a solução, mas não a resposta. Assim como parece não haver solução para a relação com a mãe.

“A senhora diz que seus filhos não a amam, que nunca recebe demonstração nenhuma desse amor que deveria ser evidente. O amor filial, a tecla gasta que propiciou à ficção páginas salgadas. Pois é, o amor de seus filhos, aquele dos qual a senhora mereceria demonstração diária e intensa depois de tudo o que fez. Não pode ser, tropeçamos na nossa própria desordem e embaraço: a única coisa que nós sabemos demonstrar, e muito bem, é ressentimento, um ódio encorpado e grosso, mágoa que escava a própria alma.” (pg. 30)

Por mais que pareça rancorosa, a protagonista alterna esses momentos com demonstrações de carinho pela mãe. Na verdade tudo que compreende é o quanto é difícil tanto ser mãe como ser filha, e como dentro de uma relação as pessoas precisam aceitar papéis, ignorar algumas verdades e viverem expostas de maneira muito crua perante sua herança familiar. Uma das várias possíveis justificativas, que parecem soluções para o dilema do título, é a própria história de pobreza e fome que a família viveu. A abundância alimentar parece suprir anos de carência, parece nos fazer crer que os dias ruins ficaram para trás enquanto pudermos nos empanturrar. O judaísmo com sua cultura, piadas, costumes, comidas e suas tragédias está fortemente presente no livro. É dos dramas de vários familiares que a protagonista extrai várias formas de lidar com a vida.

“Sou tão órfã de antepassados. Um broto arrancado à planta. Recordo, porque a memória é a melhor parte desse espólio desconjuntado. E cada lembrança de vovó é, de repente, uma novidade, longe do frio cinzento que estica as garras e rouba.” (pg. 55)

Gostei do estilo de escrita da Cíntia, ela tem uma boa prosa e muito humor durante todo livro. São especiais os trechos em que fala da avó materna, sempre carinhosa, magra e com muitos doces para oferecer aos netos, mesmo quando eles estavam em dieta na infância. Dos encontros com a avó surgem talvez os momentos mais engraçados do livro, pois a Vovó Magra parece ser aquele estilo de avó que nasceu para o papel clássico. É claro que a mãe da protagonista também não tinha uma relação muito amistosa com a própria mãe. Primeiramente poderíamos afirmar que a mãe não se dá bem com ninguém, mas isso não é verdade, em nenhum momento a culpa é colocada nela, o livro dá a mãe o direito de ser quem ela foi, nem melhor, nem pior. Já a avó ganha 10 na avaliação geral.

“Do baralho de cartas, além do pife com as amigas, a vovó também tirava previsões de futuro. Uma vez, lembro que ela me sentou à mesa da sala de jantar, embaralhou as cartas e pediu que eu separasse o monte em duas partes. Lambendo a ponta dos dedos, distribuiu um dos maços do baralho em duas fileiras. A rainha de copas e o valete de espadas, um ao lado do outro, queriam dizer isso, isso e aquilo, e aquele seis de ouros ao lado do às também de ouros, significavam que isso, isso e aquilo – previsões ou muito complicadas ou muito desinteressantes que eu não guardei na memória. Exceto por uma, acho que tirada da combinação do rei de copas ao lado de um outro seis de ouros, que ela interpretou como evidente alegria: Ui, que bom, mein kindale, você nunca vai passar fome.” (pg.92)

Quando se é mulher há uma série de mulheres para trás de nós, filhas, mães, avós, bisavós, tataravós. Há uma linhagem feminina que nos trouxe até este ponto e não fugimos disso, não fugimos dessas vidas que nos forjaram, mas também construímos um novo capítulo. A linhagem é a resposta, mas isso é apenas uma afirmação. O passado escreve o presente, mas também é possível não remexê-lo. Sem esforço e sem susto não se chega ao fim, apenas a vida que segue com suas interrogações. “A senhora, mamãe, agora sabe?”

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Srta. Bia

Srta. Bia Escreve cartas, joga gamão, lê a sorte no danoninho e faz amarrações para o amor.
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1 Comentário em “ Por Que Sou Gorda, Mamãe? ”

  1. [...] pintores dos seculos passados, mulheres gordas de formas arredondadas era o ideal de beleza feminina. Como as musas do pintor impressionista [...]

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