
Lina no Auditório do Ibirapuera
“A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras me aceitam como sou – eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas,
Que olha o relógio, que compra pão às seis horas da tarde,
Que vai lá fora, que aponta lápis,
Que vê a uva, etc. etc.
Perdoai,
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
Usando borboletas.”
Manoel de Barros, poeta matogrossense, personagem principal de Só 10% é Mentira
Esta semana eu fui abençoada pela Deusa (pelas Deusas…) com a presença de Lina Rothman, enviada pela queridíssima Pakalil, que mora em Seattle. O primeiro efeito da visita de Lina é que estou falando inglês como se tivesse nascido nos Estados Unidos (diz a Lina…). Céus… nem sei direito de onde emergiu tanto inglês, de forma tão tranqüila…
A Lina é uma mulher sensacional, super bem educada, delicada, ajuda em tudo, passa o tempo todo em cuidados comigo. Ela adorou os gatos e, para meu alívio, não implicou com os muitos cigarros que eu fumo todo dia. Tem sido sensacional compartilhar com ela alguns dos conhecimentos que fui construindo ao longo da minha vida – detalhe incrível: em inglês!
Lina trouxe à tona, no Albergue, questões que atravessam muitas mulheres e homens, que pipocam na internet e fora dela: a falta de um sentido interessante na vida, qual o rumo, como conquistar uma meta, o que fazer com o nosso passado que tantas vezes nos “breca”, as influências de pai e mãe, será que eu vou/quero ser mãe, e o amor/casamento onde fica?
Criou-se um território seguro aqui em casa. Coisa raríssima em qualquer lugar do mundo – e que só acontece quando duas pessoas realmente se entendem. Ok, este território está sempre aqui e algumas de minhas grandes amigas e amigos já tiveram esta experiência. Mas desta vez é totalmente diferente…
Primeiro, a Lina não consegue falar quase nada em português, embora se vire muito bem. Ela anda meio travada para falar – sim, ela é um tanto tímida – mas a maior questão, até onde eu consegui ir com ela é o medo de errar. E aí vem a primeira parte do título: ser.
Como é possível existir e realmente experimentar a vida sem cometer erros? De onde foi que a gente tirou esta idéia estapafúrdia? Quando começo a pensar no assunto, percebo que nossas escolas, trabalhos, instituições e relações são construídas, em geral, em torno da ideia de que a gente não pode errar. E cobram isso de cada um de nós todos os dias… No entanto, querem que a gente seja experiente, tenha sabedoria e saiba inovar (pelo menos é o que dizem…). E vem a questão: como a gente vai aprender sem errar?
A resposta, para mim, está na segunda palavra: fazer. Ao fazer a gente erra, refaz, erra, acerta… E de nada adianta olhar para fora ou para a frente. É preciso ser mais que firme consigo e olhar para dentro de nós, para o ambiente que criamos, para nossas próprias forças e fraquezas para saber como seguir em frente da melhor forma – e não como a gente idealizou.
Nossos fantasmas, em geral, são atitudes e comportamentos que a gente esqueceu de aprender a superar. Deixar o que já não se encaixa para trás é uma arte muitas vezes esquecida na correria contemporânea. Acho que foi por isso que escolhi o poema do Manoel de Barros para abrir este post. “Eu preciso ser Outros, Eu preciso renovar o homem, usando borboletas….”
Borboletas, graças, ainda resistem e fazem seus vôos anárquicos e tantas vezes coloridos pelas tardes e manhãs. Anarquizar – um pouquinho só… – e voar ao sabor do vento, tocando os fantasmas, aprender novas palavras e tatear frases desconhecidas é uma arte.
Arte humana, diga-se, todos nós a carregamos e transmitimos de alguma forma. Em qualquer língua, a todo instante. Meu pedido para a semana? Errar, fazer, acertar… E ensinar os primeiros passos do português para a linda Lina.
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Lucia Freitas Mulher, blogueira e jornalista. Escreve muito. Seus assuntos preferidos? Quase tudo. Adora uma boa discussão, conversar com amigos, novidades, gadgets.
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Ih, eu adoraria estar por aí tricotando. Adoro um papo-cabeça existencialista. Aproveite. É raro.
Besos,
Obrigada, e eu estou adorando ter estes papos existencialistas. pena que na próxima semana Lina vai para o Rio
beijo
Uma das melhores coisas que me aconteceram na internet foi descobrir o site das Deusas.Seus artigos são ótimos e eu saio daqui com vontade de contar para outras pessoas o que aprendo com vocês.
Um grande abraço.
Descobri agora esse site e estou amando… Muuuuuiiiito bom.