
Lua, por Zander Catta Pretta, no Flickr em CC BY-NC
Escrever sobre arquétipos femininos me levou a um balanço de vida. Foram caminhos tortuosos de exploração – em que as guias sempre foram mulheres. Fui uma criança sólida apavorada com a ameaça do inferno. Adolescente era deslocada, seguia a tradição católica da família por absoluta falta de alternativa – onde a única “deusa” é Nossa Senhora, em todas as suas muitas formas e aparições. Com a “maioridade” veio uma decolagem: explorei a umbanda, recheada de deusas poderosas e inspiradoras; descobri o candomblé; naveguei pelas ondas da “nova era”; encontrei o budismo através do tai-chi-chuan; fui ao espiritismo kardecista. Leitora voraz desde sempre devorei todos os livros de psicologia que encontrei pela frente – menos o tal do Freud, que ninguém merece ser menosprezada por falta de pênis –; descobri as tradições da bruxaria, Wicca, estudei um tanto de diversas tradições.
Confesso: durante toda a minha infância ouvi que mulheres não valiam a pena. Coisa da minha avó paterna, um verdadeiro estropício – que produziu lindas peças de cerâmica, é verdade. Pra completar, minha altura desde sempre muito acima da média nunca colaborou muito para que eu “encaixasse”. A não ser para eventuais convites para modelar – que deram em nada, já que minha beleza nunca foi muito convencional, menos ainda “vendável”. Isso sem contar que cresci ouvindo que “beleza não se põe na mesa”…
Fui educada de verdade por mulheres Héstia e Deméter, minhas avós por parte de mãe – uma de verdade, outra adotiva, que cuidou de três gerações da família. E entraram em cena outras mulheres-arquetípicas para mim.
Naveguei pela adolescência e a primeira parte de minha vida como a jovem Coré. “Livre para um relacionamento, para o trabalho ou um objetivo educacional”, como diz Shinoda em As Deusas e a Mulher. Conforme amadureci, Ártemis tomou o lugar da jovem boba, raptável e “mentirosa” (Perséfone mente descaradamente para Deméter depois de ser resgatada do reino de Hades, dizendo que foi “forçada” a comer sementes de romã). Ufa. Me livrei de boa. Já pensaram ter a vida ditada por outros, jogar para a platéia? Pois é… até Ártemis realmente ficar forte, isso realmente aconteceu.
Atravessei boa parte da vida vestida com o arco certeiro de Ártemis, sua túnica curta para correr (embora eu prefira caminhar) e uma comunidade de mulheres pequena, mas altamente confiável que sempre me cercou. Matei os meus grandes amores, enganada pelo espírito competitivo. Soltei o javali (também símbolo de Ártemis quando fica brava) em muitas plantações por este mundo. E ajudei algumas mulheres na hora do parto – sim, Ártemis era também a deusa do parto, na Grécia… – quando ofereci informação de confiança a mulheres grávidas em uma revista que eu editei por quase quatro anos.
Amo o sol, que sempre me energiza; meu planeta de nascimento é Marte – mas o meu astro preferido é, sem dúvida, a Lua que ilustra este artigo. Fiz este caminho enorme para descobrir que Ártemis é só a deusa que mais uso para me relacionar com o mundo. Em minhas entranhas vive Perséfone – tanto a jovem como a rainha do Inferno.
Ela governa as minhas entranhas, o que ninguém vê e não revelo. É a “guia do Inferno” e como bem descreve Jean Shinoda Bolen, representa a habilidade demovimentar-se de um lado para outro, entre a realidade do “mundo real baseado no ego” e o inconsciente ou realidade arquetípica da psique. Engraçado, mas existe um outro arquétipo, babilônico, Ishtar, muito parecido com o qual me identifico profundamente.
Deusa do amor, do sexo, da guerra e da fertilidade, Ishtar, conhecida como Inana, entre os sumérios, cultuada através da sexualidade – e verdadeira sentença de morte para seus companheiros. E também ela foi para o submundo, mas por vontade própria e ficou morta até ser resgatada. Para Joseph Campbell, o grande estudioso contemporâneo dos mitos, Ishtar, Inana e Afrodite, bem como Kali e Isis – híndi e egípcia.
Encontrar estes paralelos através de Campbell vai pedir sérias reflexões e, com a bênção de Lilith, vou encontrar um bom caminho para seguir agregando estes arquétipos e crescer cada vez mais. Afinal, também as guerreiras precisam conhecer seus pontos vulneráveis – que são as qualidades que nos permitem acolher os outros e produzir alguma diferença neste planeta.
Livros cuja leitura recomendo:
Imagem: Zander Catta Pretta, no Flickr, em CC-BY-NC
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Lucia Freitas Mulher, blogueira e jornalista. Escreve muito. Seus assuntos preferidos? Quase tudo. Adora uma boa discussão, conversar com amigos, novidades, gadgets.
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Lu,
Freud não menosprezava as mulheres. O complexo de castração é uma coisa que existe, está aí até hoje (ainda que menos, graças às nossas lutas). Freud só dá nome a ele. Na verdade, Freud foi o primeiro a dar voz às mulheres. E assim, permitiu que as histéricas se curassem.
Bjos
Olá! Sempre me identifiquei muito com Ártemis. Chorei internamente de emoção quando estive de frente com sua estátua de mármore branco, datada do séc V, e chorei externamente numa aula sobre essa deusa. Agora, descobri que a deusa alquímica (Afrodite) também mora dentro de mim. Estou dando vazão a que ela se expresse. Esse caminho da vulnerabilidade foi uma ponte que eu precisava para me conectar os os outros e não ficar apenas soltando as minhas flexas por aí.
Belo texto!
Olá Pessoal,
Pela vida afora venho habitando e sendo habitada por várias deusas. Sei o quanto elas são poderosas. Neste momento, venho tentando estabelecer um diálogo entre elas no meu interior, com o objetivo que cada uma delas assuma no momemto adequado. Nâo sei se vou conseguir…
Mergulho com Perséfone no mundo abismal dos medos, retorno com Ártemis oferecendo-me sua espada,escrevo meu projeto de educação com Atenas e saio com enfeites e perfume que Afrodite me ajuda escolher.
Vou parar por aqui. Meu comentário já está muito longo.
Fiquei muito feliz com a sincronicidade do encontro.
Até mais!